Não gosto de me sentir a prazo, de ter a sensação de um futuro a prazo, seja em termos de trabalho, de sentimentos ou de acções. Como caranguejo que sou, preciso de saber o que vou fazer amanhã, preciso de agendas e de bilhetinhos com listas imensas de coisas para cumprir (mesmo que saiba que não são exequíveis num só dia e por vezes nem sequer numa semana).
A metáfora talvez não seja das melhores, mas é como me sinto ao tirar uma fotografia. Antevejo que aquela imagem vai ser a prazo. Não porque não possa perdurar no tempo, mas simplesmente porque sei que não me vou rever na imagem daqui a um ano.
Há quem adore recordar imagens e fotografias. A mim causa-me sobretudo angústia ver instantes do passado impressos no papel ou reflectidos no ecrã. Ou porque já não me revejo daquela maneira, ou porque vejo o semblante de algo que poderia ter sido ou feito de outra forma.
O mais estranho disto tudo é que, não raras vezes, é na fotografia
(do presente/mais actual) que me reconheço e olho para o meu interior. Mais do que no reflexo do espelho.