
Sempre me lembro de ter ouvido as minhas avós dizer coisas como «no nosso tempo havia muita fome e só bebíamos leite quando alguém estava doente porque não dava para mais» e outras coisas do género que, em pleno século XXI, nos parecem longínquas.
Da mesma maneira que sempre pensei que, até aos tinta anos, conseguiria ter a minha vida organizada, ter a minha casa própria, and so on (sonhar ainda não se paga, por enquanto).
Eis hoje que fico a saber que vou ainda ficar mais pobre. Não que receba ordenado do Estado, que isso não aconteceu, mas que vou perder ainda mais poder de compra, enfrentar mais austeridade, etc.
Sinceramente, como posso fazer planos de futuro – pelo menos em tempos materiais – com perspectivas destas. Tirei uma licenciatura e uma pós-graduação, trabalho desde os 22 anos, estive vários anos a recibos verdes e hoje, aos 29, ainda dependo da minha mãe para não ter de optar entre ter de comprar comida ou ter roupa para vestir.
Sim, sei que o texto está negativo e tal, mas ouvia hoje na Antena 1, quando vinha para casa, que, numa economia aberta, era melhor que as pessoas se fossem habituando, porque «nada voltaria a ser como dantes».
Lembram-se de quando o IVA, aqui há uns dois anos, baixou de 21 para 20, porque já era, alegadamente, possível ter alguma folga orçamental. Lembram-se de os preços terem baixado nessa ocasião? Pois, eu também não… Acham que, agora anunciado que está o aumento do IVA para 23 por cento, que os preços mais algum dia mais irão descer? Creio que também já sabem a minha resposta…
Depois de feitos os cortes a uma série de subsídios, acham que mais alguma vez vão voltar a ter os montantes que tinham? Claro que não (atenção que não defendo a subsiodependência, mas apenas o que é justo)! Poder-se-á dizer «ah, e tal, agora vamos finalmente aprender a viver com menos e vai servir de exemplo para o futuro». Não creio.
P: Já agora, só mais uma coincidenciazinha: já viram quando é que este novo pacote de medidas foi aprovado?!
R: Dias depois de o Presidente da República, constitucionalmente, já não poder dissolver nenhum Governo.
Acho que vou começar a pensar em emigrar. Aliás, acho que estamos a regressar ao passado. Só espero não chegar ao extremo das avós.